Frete da Ásia: o que mudou em 60 dias e o que o importador precisa saber agora
Entrevista com CEO da ES Logistics, Evandro Ardigó, para a Interseas
Há cerca de dois meses, conversamos com o CEO da ES Logistics, Evandro Ardigó, sobre os impactos dos conflitos geopolíticos no transporte internacional de cargas. Agora, convidamos Evandro novamente para uma atualização do panorama. Confira a entrevista na íntegra.

ENTREVISTA
Quando conversamos você comentou que considerava que o frete não estava caro. E agora?
Acho que está caro, acima de um preço médio de longo prazo. A tendência é que pelo menos nos dois próximos meses continue aumentando.
E por que isso acontece?
São vários fatores. A crise do Estreito de Ormuz, iniciada há aproximadamente 90 dias, não se resolveu, gerando um aumento no custo de combustível e requisitando uma quantidade maior de navios e contêineres dos armadores pela interrupção da navegação. Outro fator é que o volume de carga de importação da China para o Brasil cresceu em torno de 15% do ano passado para cá, e a oferta de espaço cresceu menos do que isso.
Como está a questão da negociação do frete no momento?
No momento, o espaço é mais importante que o valor do frete. Nós estamos administrando as nossas alocações para atender os clientes de longo prazo.
Qual expectativa de melhora?
Estão anunciados vários blank sailings até fim de Julho. Então até lá, é em pouco provável uma melhora na oferta de espaço. Vamos ver o que acontece a partir de agosto.
Como se observam os outros trades, como Europa e EUA?
O Frete de exportação do Brasil para os EUA, por exemplo, aumentou mais de 200% também este ano. No trade da Asia para os Estados Unidos o frete também aumentou e há falta de espaço. Então podemos dizer que a maioria dos trades esta sendo impactado.
Você comenta sobre uma possibilidade de redução no segundo semestre, ao mesmo tempo que esse período é marcado pelos embarques de “compras de final de ano”. De que forma isso pode ou não impactar?
Tenho impressão que este rush das “compras de final de ano” começou mais cedo este ano. No momento já há uma corrida grande para não ter falta de produto. Muitas empresas diminuíram as importações no primeiro semestre, em comparação ao ano passado, e agora vão ter que acelerar.
Diante deste cenário, qual a principal recomendação para os importadores?
Trabalhar com agentes de cargas confiáveis e não oportunistas. Estamos vendo situações em que o cliente não aceita um frete porque estaria “caro” e depois de 48 horas volta querendo aquele espaço — e muitas vezes esse espaço já foi dado para outro cliente. Gostamos de trabalhar com reciprocidade. Priorizamos espaço para os clientes que nos prestigiam na baixa.
Leitura Interseas: como prosseguir diante desse cenário?
Mais do que uma alta pontual de frete, o momento atual reforça um cenário de mercado pressionado por fatores geopolíticos, aumento de demanda e limitação de capacidade operacional.
Na prática, isso significa que planejamento, previsibilidade e especialmente relacionamento passam a ter ainda mais relevância nas operações de importação. Em muitos casos, garantir espaço para embarque se tornou mais crítico do que buscar apenas o menor custo de frete.
O cenário segue dinâmico e deve continuar exigindo atenção dos importadores nas próximas semanas, especialmente em operações com origem Ásia.
FAQ
Por que o frete da Ásia para o Brasil subiu tanto em tão pouco tempo?
Dois fatores combinados: a crise no Estreito de Ormuz aumentou a demanda por navios e contêineres ao reconfigurar rotas, e o volume de importações da China para o Brasil cresceu cerca de 15% enquanto a oferta de espaço não acompanhou.
O que significa “espaço mais importante que frete”?
Significa que, neste momento, garantir uma alocação no navio é mais crítico do que o valor pago por ela. Espaço disponível é um ativo escasso — e quem tem relacionamento com o agente é priorizado quando a oferta aperta.
O frete vai cair no segundo semestre?
Há perspectiva de aumento de capacidade por parte dos armadores, o que poderia aliviar os preços. Mas esse período coincide com o pico de embarques de compras de final de ano. A tendência vai depender de qual força vai prevalecer — oferta nova ou demanda sazonal.
O que o importador deve fazer agora?
Trabalhar com reciprocidade. Manter relacionamento consistente com um agente de confiança é o que garante prioridade de alocação nos momentos em que o espaço é escasso. Recusar frete esperando baixa pode resultar em perda de espaço em 48 horas.

