Logística internacional: rotas reconfiguradas, combustível em alta e o impacto no frete
Entrevista com CEO da ES Logistics, para a Interseas.
Em um cenário global mais instável, logística internacional virou, ainda mais, um jogo de rota, capacidade e custo. Quando rotas são redesenhadas por segurança e quando o combustível pressiona a operação, o efeito aparece na ponta: transit time mais sensível, espaço mais disputado e ajustes no frete — inclusive com adicionais emergenciais.
Para ajudar importadores e exportadores a entenderem o que está mudando na prática, a Interseas conversou com o CEO da ES Logistics, Evandro Ardigó, que detalha por que armadores e companhias aéreas estão reorganizando rotas, como a escassez de combustível entra na conta e por que o “frete caro” é um conceito relativo.
Entrevista na íntegra

Qual é a atual situação do mercado internacional de transporte de cargas?
Momento em que os armadores e companhias aéreas estão reorganizando rotas e se adaptando à escassez de combustível.
Por que reorganizando rotas?
Visando a segurança das aeronaves/navios, tripulação e cargas não é possível transitar por áreas próximas do conflito. No modal aéreo, por exemplo, o importante hub de Dubai ficou sem opções de vôo por um mês. Como muitas cargas da Ásia para o Brasil usavam esta rota, as outras opções ficam com mais demanda.
No modal marítimo, foi interrompido o trânsito de navios de containers pelo Mar Vermelho. Isto causa uma necessidade maior de navios e containers para as cargas da Ásia para Europa, pressionando o sistema como todo.
E a escassez de combustível ?
A escassez de combustível causou um aumento no valor do combustível de navio de mais de 100%, muito acima da variação do barril de petróleo que a gente acompanha com mais facilidade. Os armadores estão tomando medidas como passar a abastecer os navios na Europa e não na Ásia, por exemplo. Os armadores também cogitam diminuir a velocidade dos navios para consumir menos.
E como isso impacta o frete marítimo internacional?
Com a capacidade disponível menor e com o preço de combustível maior, os armadores ajustam os preços. Então aconteceu paralelamente aumento do frete em si e o adicional de uma taxa de combustível emergencial. Para os clientes com grande volume que optaram por travar o frete quando estava baixo, só foi adicionado a taxa emergencial de combustível. Para os clientes que trabalham no mercado spot, estão pagando o ajuste.
O frete está caro?
O valor do frete spot está normal se for visto um valor médio pós pandemia. O valor do frete estava muito baixo e por experiência já sabemos que nunca fica tanto tempo assim, sempre acontece alguma coisa. A questão de achar que o frete está caro é muito relativo. Naquela época que o frete da Ásia para o Brasil estava custando USD 100 o container, eu ouvia de alguns clientes que estava caro porque tinham uma proposta de USD 80. Quando o frete estava USD 11.000, tinha-se a percepção que USD 9.000 era um frete baixo. Então, colocando tudo na balança, o frete spot hoje é um frete dentro da normalidade.
Qual a média do frete spot da Ásia para o Brasil hoje?
A média do frete da Ásia está em USD 2500 por container.
A guerra afetou os valores globais de frete, ou somente a região do conflito?
Impactou todos os trades; por exemplo, o frete marítimo do Brasil para os Estados Unidos registrou aumento de aproximadamente 100%.
Podemos esperar que haja uma desorganização geral da cadeia de suprimentos como visto na pandemia, ou os armadores estão mais preparados para eventos desta natureza?
Acredito que se o conflito continuar no mesmo nível, haverá falta de combustível de todo tipo, inclusive para navios. O impacto será enorme.
Leitura Interseas: o que essa entrevista exige das operações agora?
O momento exige atenção constante e acompanhamento próximo dos movimentos que afetam a logística internacional.
Mudanças de rota, restrições operacionais e oscilações no custo do combustível tornam o cenário mais sensível e reforçam a necessidade de análise, reanálise e recálculo frequente de prazos e custos.
FAQ
1) Por que a reorganização de rotas aumenta a demanda em outras opções?
Porque quando uma rota “cai”, o volume migra para caminhos alternativos e a capacidade dessas rotas fica mais disputada.
2) Taxa emergencial de combustível é a mesma coisa que frete?
Não. Normalmente é um adicional criado para compensar a pressão de custo de combustível e condições operacionais.
3) Spot ou contrato: quem sente mais?
Em geral, o spot reage mais rápido; contratos podem reduzir volatilidade, mas adicionais ainda podem aparecer, dependendo do acordo.
4) O que acompanhar para tomar a melhor decisão?
Indicadores e relatórios setoriais ajudam a entender a tendência de frete, disrupções e custo operacional no tempo.

